domingo, 29 de dezembro de 2019

detrás

quando vim ao mundo
não entendendo bem as coisas
furaram minhas orelhas
me botaram um peixe na boca
e disseram
engole!
esse é o Amor

eu engoli 

não demorou muito
pra eu notar que alguns peixes
eram diferentes do meu
eram quietos
silenciosos
e eu quis prova-los 
mas não pude 
eles nunca se encaixavam na minha boca
eram sempre grandes
ou pequenos demais

um dia 
curiosa
perguntei
que peixe é esse? 
“é o Amor”, me disseram
“Amor tem gosto bom”

não
não pode ser
eles não fariam isso comigo
amor tem gosto ruim
que arde a garganta
que aperta o estômago 
amor tem som de grito
de choro
amor não dá espaço pro sossego
pro silêncio 

briguei até cansar
não quis mais provar do peixe quieto
fui atrás do barulhento
que machucava minha mão 
na hora de pegar 
que eu precisava apertar com força
pra não escorregar 
e que eu sempre acabava deixando cair
de volta na água 
e ia embora
triste
como devia ser 

acontece que
foi por um descuido
que esqueceram de tirar os espinhos
do peixe que eu
outrora engoli
sem querer
me ensinaram que o amor 
tem gosto salgado de lágrima
de coisa que machuca
de ferida que não sara 
e eu
aparentemente
aprendi bem essa lição 

hoje eu sei
que o que a gente aprende
não é definitivo
mas é de fato persistente
e que
por mais bonitas que sejam
as flores que agora me vestem
por detrás delas
existe ainda um peixe
pulando na areia
implorando pra que eu o devolva
pra algum lugar
onde ele possa respirar

e esse lugar
sou eu 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

estou aqui para lhe dizer que ando vulnerável

eu fui uma menina cheia de sonhos
repleta de expectativas sobre o amor
mas ele apareceu
e foi como uma tragédia grega
deixou em ruínas o meu palácio
os pilares cederam
os jardins murcharam
eu morri por um tempo
mas sobrevivi
soterrei o pátio
precisei
era definitivo

planejei, então, um futuro para mim
e para mim só
viagens, carnavais, sambas e festivais
esbanjando a liberdade e independência
que tanto desejei
sem a sombra do amor por outrem
que mais cedo me destruiu

você, aqui, apareceu de repente
não era personagem da história que criei
daquela sobre a qual eu tinha controle
e na qual eu não corria risco de morte

você já deve ter percebido que tenho medo
e isso é eufemismo
eu estou mesmo apavorada
em pânico
porque sei que você pode destruir
o palácio que levei tanto tempo para arrumar
e eu ainda sou capaz de sentir na minha boca
o gosto amargo da poeira
que vem depois da implosão

tirei o pó da minha casa quando você chegou
passei pano no chão
mudei o sofá de lugar
perfumei as cortinas
coloquei flores na mesa
mas ali
bem ali no fundinho do corredor
ainda guardo as ruínas do primeiro palácio
que caiu por terra dentro de mim

estou aqui para lhe dizer que ando vulnerável
que os meus sentimentos estão se acumulando
entrelaçados com as notícias ruins
que não sou diferente de ninguém
e a vida, portanto,
também me é difícil 

mas, acima de tudo,
estou aqui para te perguntar
e te peço honestidade
se eu te abrir a porta da frente 
e você não precisar mais pular a minha janela
você promete
não me destruir?

Escrevo agora que é para me refugiar

Isso. Não tenho palavras bonitas, enfeitadas, complexas ou poéticas. Tenho as palavras que são minhas e as escrevo agora com a tinta do meu medo.
A vida tem me trazido muita angústia. Eu não quero reclamar, porque estou exatamente onde eu sonhei estar, mas eu preciso confessar que pensei que seria mais fácil. Pensei que, a essa altura, a maioria dos meus problemas estariam resolvidos. Era mentira. A verdade cruel sobre viver e crescer é que a angústia te acompanha mais do que a felicidade e nem sempre você tem tempo para lidar com isso. Sinto que a vida me atropela diariamente. Minhas obrigações me sufocam enquanto vejo esvair-se o meu tempo por aqui. Acumulo sentimentos e notícias ruins, empurro tudo isso para debaixo do tapete e sigo em frente. Estou despersonificada.
Estou despersonificada porque não me enxergo vivendo a minha vida. As coisas que acontecem comigo parecem estar acontecendo com outra pessoa. Tem alguém vivendo a minha vida e esse alguém não se parece comigo. Quando uma bomba me atinge, não parece que foi a mim que atingiu. Quando um sonho se realiza, não parece que foi o meu. Eu não consigo compreender se isso tem sido o meu jeito de suportar a realidade ou se eu estou simplesmente enlouquecendo. Se eu virei um bicho de sete cabeças.
O que tem me deixado maluca é que eu tenho pensado que enlouquecer é a única maneira de conseguir continuar vivendo. E isso se subdivide em duas formas de resistir ao real: criar, na sua cabeça, uma ilusão de realidade, acreditar nela e, a partir disso, viver sua vida (isso a gente chama de loucura) ou se dopar diariamente com drogas lícitas (e isso a gente não chama de nada, já é banal). Como seria possível suportar a vida sem anestesia?
Hoje uma bomba me atingiu. E eu tenho me sentido despersonificada o dia todo. Vim escrever para me esconder do que sinto, para ocupar o meu tempo e a minha cabeça e para tentar não criar, irreversivelmente, uma ilusão. O que conecta o real com o imaginário é a mesma linha de algodão que conecta a sanidade e a loucura. E eu não quero arrebentá-la.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

as suas mãos ainda me alcançam

as suas mãos ainda me alcançam
quando eu busco meu café
e ainda ouço você gritar o meu nome
lá do outro lado da rua
como se eu já não tivesse
tropeçado na sua presença
como se isso fosse preciso
pra que eu notasse você

as suas mãos ainda me alcançam
quando estou sentada no bar
com outra pessoa
e ela se comporta como você
com uma palavra descuidada
ou uma brincadeira
despretensiosa
imediatamente aterrorizantes
para mim

as suas mãos ainda me alcançam
quando meu corpo é deitado
ao lado de outra pessoa
e eu pareço ainda sentir
o laço que suas pernas davam
nas minhas
quando o corpo ao lado do meu
era você

as suas mãos ainda me alcançam
quando eu tento
e tento
ir embora
mas elas ainda me alcançam
me tocam
agarram
e me puxam
de volta
de novo

as suas mãos são
incrivelmente
longas, elásticas
fortemente dolorosas
para mim
porque elas ainda me alcançam
mesmo eu estando tão longe
mesmo sem esforço algum de você
elas ainda
repetidamente
me alcançam

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Walking on a wire

09h: dia ensolarado. Corpo ainda cansado do dia anterior, preciso de um café, textura engraçada do chão na sola do sapato, algumas risadas e um sorriso, até então, honesto. "Vamos passar no hospital comigo rapidinho?". "Claro, vamos". As preocupações tentam me escapar pelo canto da boca sem sucesso, meu sorriso é prisão de segurança máxima. Sufoco a mistura de animação e medo que a possibilidade remota de cruzar com ele me desperta. Deixo-os abafados em um canto úmido qualquer. Gatilho quase imperceptível e bem mascarado por mim. Adrenalina no organismo, estado de alerta, "será que ele está por aqui?" e o poder incrível que isso tem de estragar minhas relações.
09h09min: ele está por aqui. Fico sem graça, faço que não vi. Finjo surpresa. Oi, tudo bem? com um aceno, claro, pra não parecer maluca. Coração na boca, dificuldade em mascarar esse gatilho, tentando agir naturalmente. O jeito que tô carregando a mochila, será que tá engraçado? Não queria estar com essa bolsa na mão. Será que eu deveria ter dado um abraço? Só um aceno pareceu frio demais? Será que eu estraguei tudo? Pára, não mexe no cabelo. Segue andando, olha pra outra direção. Segue andando. Segue andando.
09h10min: não sei o que aconteceu. Só segui andando.
09h11min: notificação. É ele. Falta de ar. Felicidade repentina seguida por medo e raiva. Estava com saudades... Que saco! Por que você não pode simplesmente me dar um motivo real pra desistir disso? Um motivo que não deixe dúvidas de que a culpa foi sua. Por que não faz uma coisa muito chata pra que não exista a possibilidade de você ter tido uma boa intenção? E por que não faz isso bem agora, no começo, pra não me fazer sofrer mais depois? ... É óbvio. Como eu sou burra. Você me viu e só por isso lembrou que eu existo. Lembrou que tenho prova hoje? Não fez questão de falar comigo o final de semana todo e agora acha que está tudo bem? Vou te responder com um obrigada e só. "Gente, ele mandou mensagem". "Não responde agora, responde depois da prova pra ter assunto". Acontece que eu já respondi. Faço tudo errado mesmo, estraguei tudo. É claro que ele não vai me responder mais. Eu respondi errado e na hora errada. Ele não vai mais falar comigo, porque eu não soube retribuir. Mas eu estou certa, não deveria retribuir, ele não fez por merecer. Só que eu estava com tanta saudade. Falta de ar. Dor de cabeça. "Amiga, você tem algum calmante aí?". "Não, amiga". "Tudo bem, vou escrever."
10h45min: não sei o que aconteceu. Eu só escrevi. Nenhum retorno dele. Não vou esperar, não vai ter retorno. Eu queria que ele quisesse me ver... estou com tanta saudade. Não seja imbecil. Não vou mais ser imbecil. Dor de cabeça, energia exaurida. Não dá pra ser mais leve, Bárbara? Você mal conhece o garoto. Você sequer gosta dele de verdade. Não tem nada de errado com essa situação. Então... o que é que tem de errado comigo?