não entendendo bem as coisas
furaram minhas orelhas
me botaram um peixe na boca
e disseram
engole!
esse é o Amor
eu engoli
não demorou muito
pra eu notar que alguns peixes
eram diferentes do meu
eram quietos
silenciosos
e eu quis prova-los
mas não pude
eles nunca se encaixavam na minha boca
eram sempre grandes
ou pequenos demais
um dia
curiosa
perguntei
que peixe é esse?
“é o Amor”, me disseram
“Amor tem gosto bom”
não
não pode ser
eles não fariam isso comigo
amor tem gosto ruim
que arde a garganta
que aperta o estômago
amor tem som de grito
de choro
amor não dá espaço pro sossego
pro silêncio
briguei até cansar
não quis mais provar do peixe quieto
fui atrás do barulhento
que machucava minha mão
na hora de pegar
que eu precisava apertar com força
pra não escorregar
e que eu sempre acabava deixando cair
de volta na água
de volta na água
e ia embora
triste
triste
como devia ser
acontece que
foi por um descuido
que esqueceram de tirar os espinhos
do peixe que eu
outrora engoli
outrora engoli
sem querer
me ensinaram que o amor
me ensinaram que o amor
tem gosto salgado de lágrima
de coisa que machuca
de ferida que não sara
e eu
aparentemente
aprendi bem essa lição
hoje eu sei
que o que a gente aprende
não é definitivo
mas é de fato persistente
e que
por mais bonitas que sejam
por mais bonitas que sejam
as flores que agora me vestem
por detrás delas
existe ainda um peixe
pulando na areia
implorando pra que eu o devolva
pra algum lugar
onde ele possa respirar
e esse lugar
sou eu
onde ele possa respirar
e esse lugar
sou eu
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