Fico lembrando do dia em que estive com você pela última vez... do quanto me fez bem; e do quanto me fez mal. Do quanto eu acreditei; e do quanto me enganei. Fico lembrando dos momentos, passando um a um na minha cabeça. Me coloco na posição de réu e de juiza e julgo quando fui boba demais, quando fui bêbada demais, quando fui transparente demais, quando fui demais, do jeito que acho que não deveria ter sido - e sempre acho que não deveria ter sido.
Fico lembrando do caminho até a sua casa e, depois, até a minha, e do quanto eu queria me lembrar melhor de tudo: de cada passo, de cada palavra, de cada detalhe. Queria me lembrar melhor do seu hall, do seu trejeito, do seu caminhar, das suas piadas ruins. Queria me lembrar melhor do seu toque, do seu beijo e do seu cheiro (que você deixou por alguns dias no meu travesseiro e na minha toalha).
Quando chego aqui, esbarro no seu desprezo, na sua irresponsabilidade, no seu ego, na sua prepotência e no seu jeito de me diminuir, de me fazer sentir menor, pequena, errada, insuficiente. Mas logo, infelizmente, desvio disso e me lembro de você deitado ao meu lado, reclamando da bagunça da minha mochila e lembro de apertar forte a sua mão, bem forte, na esperança de que isso fizesse com que eu parasse o mundo naquele instante e agarrasse não a sua mão, mas aquele momento. Nessa hora, pedi pra quem quer que estivesse ali nos assistindo e me ouvindo pra que você ficasse só mais um pouco, pra que eu pudesse estar daquele jeito com você de novo. Pedi pra que você criasse a coragem de ser quem é e pra que essa pessoa gostasse de mim e quisesse dividisse o caminho comigo.
Acontece que algumas coisas não são pra ser... e nós não fomos. Você foi embora rápido, quase fugindo - ou fugindo mesmo. Não quis ficar mais do que um café com leite, enquanto eu queria mesmo é que você ficasse pro jantar, pra dormir de novo e pra transar pela manhã. Queria desesperadamente que você ficasse, pra que eu pudesse me cobrir de novo com o seu braço, me entrelaçar nas suas pernas e ficar presa à você.
Eu queria muito ter arrumado melhor a casa, ter feito o seu café, ter te oferecido mais do que um beijo... mas não pude. E não me sai da cabeça a textura do seu abraço - que eu sabia que seria de despedida - e o seu beijo no meu olho direito. Eu me lembro tão bem do espaço que você ocupou no meio dos meus braços e do desespero por querer que você ficasse, por querer que tudo aquilo passasse mais devagar, por saber que as coisas eram como eram e que eu não tinha como mudar.
Três dias depois você me deu um tapa. Foi de longe, mas eu senti. E eu não esperava... burra. Mas entendi o recado.
Desde então você só vem me machucando e me confundindo. E a saudade que tenho de você me fere, me machuca, não só porque eu queria você aqui, mas porque sei que essa saudade eu não deveria sentir. Porque sei que o que você me dá são migalhas e eu deveria recusar, exigir pra mim algo melhor que isso. Eu não deveria querer, mas eu ainda quero. Eu ainda te vigio, te procuro, te lembro... ainda caio na sua armadilha e te ignoro por não saber me defender de você. Por não saber me defender do que você causa em mim, da insegurança que você me desperta e de todos os defeitos que você me aponta: o meu jeito de falar, minhas unhas, meus hábitos... eu.
Eu tenho raiva de você. E de mim. Porque preciso brigar comigo pra não aceitar ser sua segunda opção, sua sobra, seu escape da carência. Eu não sou isso, eu sou mais; e eu deveria saber. Mas preciso ficar repetindo... e mesmo na repetição, ainda é difícil.
Eu queria gostar mais de mim. E queria que você gostasse também.