sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

 Gostaria de ter escrito um diário. Gostaria de dia após dia, ter registrado em palavras o sabor de cada coisa que senti. Da ansiedade, do fascínio, do êxtase, da gratidão. Gostaria de ter escrito linhas e linhas para que eu pudesse, no futuro, que agora é hoje, olhar para trás e ter a minha boca tomada por esse sabor, meu corpo tomado pela sensação, pelo frio na barriga. Quando fecho os olhos, aqui, sentada, nessa sala, sozinha, consigo ainda sentir. 

Agora, tento, quase que sem esperanças, lutar contra a minha natureza. Tento lutar contra o anseio de transformar toda essa experiência em dor, pois estou vendo essa realidade se pôr no horizonte. A Terra gira em uma velocidade incessante enquanto eu aqui fico contando os segundos como se eu quisesse que o tempo passasse. Coloco em um ponto todos os meus objetivos. Deposito ali a minha capacidade de ser alegre, de ser feliz. Não é mais a solidão que me incomoda, mas a falta. A falta de algo, a falta de alguém. A rapidez com que eu transformo coisas boas em coisas ruins é impressionante, e, aparentemente, mais rápida que a Terra. 

Quando fecho os olhos, ou melhor, quando os deixo bem abertos, consigo ver exatamente o que aconteceu. Consigo entender e, se eu quisesse, poderia agora mesmo explicar para você. Poderia te dizer como começou, como cresceu, por que cresceu e como chegou até aqui. Tenho uma explicação e uma resposta na ponta da língua para qualquer pergunta que você me fizer, eu te garanto. Mas ainda assim, não consigo internalizar. Ainda assim, a minha natureza é mais forte. E muito mais incansável ao tentar roubar de mim qualquer doce que a vida me dá.

Hoje tive um pensamento que me veio de rápido e súbito e que talvez represente toda a essência do que eu sou. Pensei que eu não quero que meus filhos sejam como eu. Eu não quero que meus filhos carreguem o fardo que é sentir o mundo da maneira que eu sinto. Tenho medo de que isso seja transmitido nos meus genes. Essa insatisfação constante, esse sofrimento sem pé nem cabeça, essa (quase que ou inteiramente) ingratidão frente à generosidade e amplitude da vida. Eu não quero ser responsável por transmitir isso a ninguém, porque isso não é jeito que se viva. Estou perdendo cada maravilha que passa ao meu redor por estar completamente presa e confinada por mim mesma, nesse ciclo egoísta e sádico de sofrer pelo que não se deve. 

No cerne desse pensamento encontra-se a minha ilusão de controle. Como se eu tivesse o poder de decidir como alguém vai receber o mundo. Como se o meu destino não passasse de um ato de uma peça mentirosa e quem fosse responsável por escolher tudo, fosse eu. Eu escolho o cenário, o figurino, os atores, as falas, o início, o meio, o fim. Eu pareço conseguir escolher tudo, menos a mim mesma.

Ou, então, a única coisa que consigo escolher, é a mim mesma. E, ao fazer essa escolha, eu me agarro e aperto tanto que me machuco de uma forma que ninguém mais é capaz de fazer. Somente alguém que me conhece tão bem quanto eu mesma conseguiria me provocar tanta dor. Minhas ferramentas são inúmeras, você nem pode imaginar. Tudo na minha mão vira instrumento de flagelo. O ontem, o hoje, o amanhã... não importa. Se é verdade, também não importa. Se é perene, duradouro, não importa. Só importa o agora. E ele só importa se doer. E, pra isso, se ele não doi sozinho, eu faço doer. Porque se ele doi, ele importa. A realidade toca minhas emoções como uma matéria toca a outra. Se é suave, passa. Se machuca, deixa cicatriz.

Agora escrevo para tentar lutar, novamente, quase sem esperanças, contra o meu olhar enviesado e contra a armadilha que eu mesma armei para o meu coração. Continuo sem esperanças porque chego neste parágrafo ainda com o mesmo aperto no peito com que comecei a escrever a primeira palavra deste texto. Agora, não importa mais onde estou. Não importa mais o que estou fazendo, para onde estou indo. Nesse momento, tudo o que me importa é como alguém que eu não conheço se sente em relação a mim. E isso é um enigma que eu não consigo desvendar.

Conter os meus impulsos tem sido uma guerra que travei comigo mesma há mais de 24h. Cada pensamento que passa pela minha cabeça, eu tento calar. Cada ação, eu tento reprimir. Porque, frente a tudo isso, eu percebo que, apesar de confiar na minha percepção, eu não sei ser paciente. A espera me corroi. O silêncio me corroi. E existe um  mundo todo ao meu redor que está funcionando e acontecendo. Mas eu não consigo ver porque estou ocupada mastigando os meus próprios pedaços.


sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

 sou rio que corre e que anda

que, por vezes, sabe até voar

guardo nos meus olhos a força de uma mulher

e de outras mulheres

a doçura de uma menina

a transparência de uma nascente

e a profundidade de um oceano

mostro ao mundo quem sou 

por não saber fazer diferente

e foi assim que entendi

entendi?

que existe um mistério natural

que paira sobre seres como eu 

não é preciso esconder nada

não temo a morte

pois já temo demais a sorte 

e sinto às vezes buscar o azar

há nele uma beleza que me encanta

por quê?

não sei

a dor é magnética

familiar

talvez polarizada como eu

algumas vezes sei ser o que preciso

mas escolho ser o que quero

outras vezes desisto de precisar

e escolho só querer 

é quando sou dominada pela pessoa que fui

e fico com ressaca de mim mesma

se me perguntarem no dia seguinte

me odeio

se me perguntarem dali alguns dias

faria tudo de novo

tenho a intensidade natural 

de uma pessoa que se alimenta de afeto

de sofrimento

e de tudo que ateia fogo

no que ainda existe dentro de nós

pago um preço alto por ser assim

por muito tempo quis ser outra 

ser tal 

ou então, não ser  

bastava

mas sou

e eu que por tanto lutei 

hoje luto pra ser e só 

sentir e só 

deixar ir 

deixar correr, andar, voar

navegar

não sou rio calmo

nunca fui e não quero ser

sou rio de água transparente

mas que só vê o fundo quem sabe nadar

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

intransponível

a minha história é um rabisco

feito por uma linha só

partindo de um ponto único

brilhante e solitário

encantador aos olhos

e intransponível por nascença


na maior parte do tempo

rabiscar essa história é como

desenhar em um guardanapo frouxo

apoiado na palma da minha própria mão:

é difícil

não há firmeza

o traço fica estranho

e o grafite perfura o papel


o resultado disso é um rabisco

que pode até não ser lá muito renascentista

mas que passa a sua mensagem

e que consegue

sem muito esforço

encantar os olhos 

de quem sabe apreciá-lo


dentre todas as coisas

que eu poderia falar sobre o meu rabisco

a mais importante delas

é que

apesar da inconstância

da incompreensão

e da chuva que insiste em cair

e borrar o grafite do meu papel

o rabisco permanece 


a minha história é um rabisco

que borra, sim

mas que

sobretudo

resiste

e que aparece

e que há de sempre aparecer

todas as vezes que alguém lançar os olhos

para esse pedaço de papel

segunda-feira, 30 de março de 2020

nada nesse universo
se equipara
ao prazer da liberdade de sentir

nada consegue chegar perto
da segurança
de saber que você é o que é
e de conhecer o que é
de aceitar que você sente
de entender o seu processo
e reconhecer o seu progresso

é lindo saber
que você é capaz de subverter 
a obrigação da felicidade
e nem se incomodar com isso 
porque você sabe
e se permite
sentir

Gostar: lhe ou me?

Fico lembrando do dia em que estive com você pela última vez... do quanto me fez bem; e do quanto me fez mal. Do quanto eu acreditei; e do quanto me enganei. Fico lembrando dos momentos, passando um a um na minha cabeça. Me coloco na posição de réu e de juiza e julgo quando fui boba demais, quando fui bêbada demais, quando fui transparente demais, quando fui demais, do jeito que acho que não deveria ter sido - e sempre acho que não deveria ter sido.
Fico lembrando do caminho até a sua casa e, depois, até a minha, e do quanto eu queria me lembrar melhor de tudo: de cada passo, de cada palavra, de cada detalhe. Queria me lembrar melhor do seu hall, do seu trejeito, do seu caminhar, das suas piadas ruins. Queria me lembrar melhor do seu toque, do seu beijo e do seu cheiro (que você deixou por alguns dias no meu travesseiro e na minha toalha).
Quando chego aqui, esbarro no seu desprezo, na sua irresponsabilidade, no seu ego, na sua prepotência e no seu jeito de me diminuir, de me fazer sentir menor, pequena, errada, insuficiente. Mas logo, infelizmente, desvio disso e me lembro de você deitado ao meu lado, reclamando da bagunça da minha mochila e lembro de apertar forte a sua mão, bem forte, na esperança de que isso fizesse com que eu parasse o mundo naquele instante e agarrasse não a sua mão, mas aquele momento. Nessa hora, pedi pra quem quer que estivesse ali nos assistindo e me ouvindo pra que você ficasse só mais um pouco, pra que eu pudesse estar daquele jeito com você de novo. Pedi pra que você criasse a coragem de ser quem é e pra que essa pessoa gostasse de mim e quisesse dividisse o caminho comigo.
Acontece que algumas coisas não são pra ser... e nós não fomos. Você foi embora rápido, quase fugindo - ou fugindo mesmo. Não quis ficar mais do que um café com leite, enquanto eu queria mesmo é que você ficasse pro jantar, pra dormir de novo e pra transar pela manhã. Queria desesperadamente que você ficasse, pra que eu pudesse me cobrir de novo com o seu braço, me entrelaçar nas suas pernas e ficar presa à você.
Eu queria muito ter arrumado melhor a casa, ter feito o seu café, ter te oferecido mais do que um beijo... mas não pude. E não me sai da cabeça a textura do seu abraço - que eu sabia que seria de despedida - e o seu beijo no meu olho direito. Eu me lembro tão bem do espaço que você ocupou no meio dos meus braços e do desespero por querer que você ficasse, por querer que tudo aquilo passasse mais devagar, por saber que as coisas eram como eram e que eu não tinha como mudar.
Três dias depois você me deu um tapa. Foi de longe, mas eu senti. E eu não esperava... burra. Mas entendi o recado.
Desde então você só vem me machucando e me confundindo. E a saudade que tenho de você me fere, me machuca, não só porque eu queria você aqui, mas porque sei que essa saudade eu não deveria sentir. Porque sei que o que você me dá são migalhas e eu deveria recusar, exigir pra mim algo melhor que isso. Eu não deveria querer, mas eu ainda quero. Eu ainda te vigio, te procuro, te lembro... ainda caio na sua armadilha e te ignoro por não saber me defender de você. Por não saber me defender do que você causa em mim, da insegurança que você me desperta e de todos os defeitos que você me aponta: o meu jeito de falar, minhas unhas, meus hábitos... eu.
Eu tenho raiva de você. E de mim. Porque preciso brigar comigo pra não aceitar ser sua segunda opção, sua sobra, seu escape da carência. Eu não sou isso, eu sou mais; e eu deveria saber. Mas preciso ficar repetindo... e mesmo na repetição, ainda é difícil.
Eu queria gostar mais de mim. E queria que você gostasse também.

domingo, 29 de dezembro de 2019

detrás

quando vim ao mundo
não entendendo bem as coisas
furaram minhas orelhas
me botaram um peixe na boca
e disseram
engole!
esse é o Amor

eu engoli 

não demorou muito
pra eu notar que alguns peixes
eram diferentes do meu
eram quietos
silenciosos
e eu quis prova-los 
mas não pude 
eles nunca se encaixavam na minha boca
eram sempre grandes
ou pequenos demais

um dia 
curiosa
perguntei
que peixe é esse? 
“é o Amor”, me disseram
“Amor tem gosto bom”

não
não pode ser
eles não fariam isso comigo
amor tem gosto ruim
que arde a garganta
que aperta o estômago 
amor tem som de grito
de choro
amor não dá espaço pro sossego
pro silêncio 

briguei até cansar
não quis mais provar do peixe quieto
fui atrás do barulhento
que machucava minha mão 
na hora de pegar 
que eu precisava apertar com força
pra não escorregar 
e que eu sempre acabava deixando cair
de volta na água 
e ia embora
triste
como devia ser 

acontece que
foi por um descuido
que esqueceram de tirar os espinhos
do peixe que eu
outrora engoli
sem querer
me ensinaram que o amor 
tem gosto salgado de lágrima
de coisa que machuca
de ferida que não sara 
e eu
aparentemente
aprendi bem essa lição 

hoje eu sei
que o que a gente aprende
não é definitivo
mas é de fato persistente
e que
por mais bonitas que sejam
as flores que agora me vestem
por detrás delas
existe ainda um peixe
pulando na areia
implorando pra que eu o devolva
pra algum lugar
onde ele possa respirar

e esse lugar
sou eu 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

estou aqui para lhe dizer que ando vulnerável

eu fui uma menina cheia de sonhos
repleta de expectativas sobre o amor
mas ele apareceu
e foi como uma tragédia grega
deixou em ruínas o meu palácio
os pilares cederam
os jardins murcharam
eu morri por um tempo
mas sobrevivi
soterrei o pátio
precisei
era definitivo

planejei, então, um futuro para mim
e para mim só
viagens, carnavais, sambas e festivais
esbanjando a liberdade e independência
que tanto desejei
sem a sombra do amor por outrem
que mais cedo me destruiu

você, aqui, apareceu de repente
não era personagem da história que criei
daquela sobre a qual eu tinha controle
e na qual eu não corria risco de morte

você já deve ter percebido que tenho medo
e isso é eufemismo
eu estou mesmo apavorada
em pânico
porque sei que você pode destruir
o palácio que levei tanto tempo para arrumar
e eu ainda sou capaz de sentir na minha boca
o gosto amargo da poeira
que vem depois da implosão

tirei o pó da minha casa quando você chegou
passei pano no chão
mudei o sofá de lugar
perfumei as cortinas
coloquei flores na mesa
mas ali
bem ali no fundinho do corredor
ainda guardo as ruínas do primeiro palácio
que caiu por terra dentro de mim

estou aqui para lhe dizer que ando vulnerável
que os meus sentimentos estão se acumulando
entrelaçados com as notícias ruins
que não sou diferente de ninguém
e a vida, portanto,
também me é difícil 

mas, acima de tudo,
estou aqui para te perguntar
e te peço honestidade
se eu te abrir a porta da frente 
e você não precisar mais pular a minha janela
você promete
não me destruir?