sexta-feira, 18 de outubro de 2019

estou aqui para lhe dizer que ando vulnerável

eu fui uma menina cheia de sonhos
repleta de expectativas sobre o amor
mas ele apareceu
e foi como uma tragédia grega
deixou em ruínas o meu palácio
os pilares cederam
os jardins murcharam
eu morri por um tempo
mas sobrevivi
soterrei o pátio
precisei
era definitivo

planejei, então, um futuro para mim
e para mim só
viagens, carnavais, sambas e festivais
esbanjando a liberdade e independência
que tanto desejei
sem a sombra do amor por outrem
que mais cedo me destruiu

você, aqui, apareceu de repente
não era personagem da história que criei
daquela sobre a qual eu tinha controle
e na qual eu não corria risco de morte

você já deve ter percebido que tenho medo
e isso é eufemismo
eu estou mesmo apavorada
em pânico
porque sei que você pode destruir
o palácio que levei tanto tempo para arrumar
e eu ainda sou capaz de sentir na minha boca
o gosto amargo da poeira
que vem depois da implosão

tirei o pó da minha casa quando você chegou
passei pano no chão
mudei o sofá de lugar
perfumei as cortinas
coloquei flores na mesa
mas ali
bem ali no fundinho do corredor
ainda guardo as ruínas do primeiro palácio
que caiu por terra dentro de mim

estou aqui para lhe dizer que ando vulnerável
que os meus sentimentos estão se acumulando
entrelaçados com as notícias ruins
que não sou diferente de ninguém
e a vida, portanto,
também me é difícil 

mas, acima de tudo,
estou aqui para te perguntar
e te peço honestidade
se eu te abrir a porta da frente 
e você não precisar mais pular a minha janela
você promete
não me destruir?

Escrevo agora que é para me refugiar

Isso. Não tenho palavras bonitas, enfeitadas, complexas ou poéticas. Tenho as palavras que são minhas e as escrevo agora com a tinta do meu medo.
A vida tem me trazido muita angústia. Eu não quero reclamar, porque estou exatamente onde eu sonhei estar, mas eu preciso confessar que pensei que seria mais fácil. Pensei que, a essa altura, a maioria dos meus problemas estariam resolvidos. Era mentira. A verdade cruel sobre viver e crescer é que a angústia te acompanha mais do que a felicidade e nem sempre você tem tempo para lidar com isso. Sinto que a vida me atropela diariamente. Minhas obrigações me sufocam enquanto vejo esvair-se o meu tempo por aqui. Acumulo sentimentos e notícias ruins, empurro tudo isso para debaixo do tapete e sigo em frente. Estou despersonificada.
Estou despersonificada porque não me enxergo vivendo a minha vida. As coisas que acontecem comigo parecem estar acontecendo com outra pessoa. Tem alguém vivendo a minha vida e esse alguém não se parece comigo. Quando uma bomba me atinge, não parece que foi a mim que atingiu. Quando um sonho se realiza, não parece que foi o meu. Eu não consigo compreender se isso tem sido o meu jeito de suportar a realidade ou se eu estou simplesmente enlouquecendo. Se eu virei um bicho de sete cabeças.
O que tem me deixado maluca é que eu tenho pensado que enlouquecer é a única maneira de conseguir continuar vivendo. E isso se subdivide em duas formas de resistir ao real: criar, na sua cabeça, uma ilusão de realidade, acreditar nela e, a partir disso, viver sua vida (isso a gente chama de loucura) ou se dopar diariamente com drogas lícitas (e isso a gente não chama de nada, já é banal). Como seria possível suportar a vida sem anestesia?
Hoje uma bomba me atingiu. E eu tenho me sentido despersonificada o dia todo. Vim escrever para me esconder do que sinto, para ocupar o meu tempo e a minha cabeça e para tentar não criar, irreversivelmente, uma ilusão. O que conecta o real com o imaginário é a mesma linha de algodão que conecta a sanidade e a loucura. E eu não quero arrebentá-la.