sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Escrevo agora que é para me refugiar

Isso. Não tenho palavras bonitas, enfeitadas, complexas ou poéticas. Tenho as palavras que são minhas e as escrevo agora com a tinta do meu medo.
A vida tem me trazido muita angústia. Eu não quero reclamar, porque estou exatamente onde eu sonhei estar, mas eu preciso confessar que pensei que seria mais fácil. Pensei que, a essa altura, a maioria dos meus problemas estariam resolvidos. Era mentira. A verdade cruel sobre viver e crescer é que a angústia te acompanha mais do que a felicidade e nem sempre você tem tempo para lidar com isso. Sinto que a vida me atropela diariamente. Minhas obrigações me sufocam enquanto vejo esvair-se o meu tempo por aqui. Acumulo sentimentos e notícias ruins, empurro tudo isso para debaixo do tapete e sigo em frente. Estou despersonificada.
Estou despersonificada porque não me enxergo vivendo a minha vida. As coisas que acontecem comigo parecem estar acontecendo com outra pessoa. Tem alguém vivendo a minha vida e esse alguém não se parece comigo. Quando uma bomba me atinge, não parece que foi a mim que atingiu. Quando um sonho se realiza, não parece que foi o meu. Eu não consigo compreender se isso tem sido o meu jeito de suportar a realidade ou se eu estou simplesmente enlouquecendo. Se eu virei um bicho de sete cabeças.
O que tem me deixado maluca é que eu tenho pensado que enlouquecer é a única maneira de conseguir continuar vivendo. E isso se subdivide em duas formas de resistir ao real: criar, na sua cabeça, uma ilusão de realidade, acreditar nela e, a partir disso, viver sua vida (isso a gente chama de loucura) ou se dopar diariamente com drogas lícitas (e isso a gente não chama de nada, já é banal). Como seria possível suportar a vida sem anestesia?
Hoje uma bomba me atingiu. E eu tenho me sentido despersonificada o dia todo. Vim escrever para me esconder do que sinto, para ocupar o meu tempo e a minha cabeça e para tentar não criar, irreversivelmente, uma ilusão. O que conecta o real com o imaginário é a mesma linha de algodão que conecta a sanidade e a loucura. E eu não quero arrebentá-la.

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