sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

 sou rio que corre e que anda

que, por vezes, sabe até voar

guardo nos meus olhos a força de uma mulher

e de outras mulheres

a doçura de uma menina

a transparência de uma nascente

e a profundidade de um oceano

mostro ao mundo quem sou 

por não saber fazer diferente

e foi assim que entendi

entendi?

que existe um mistério natural

que paira sobre seres como eu 

não é preciso esconder nada

não temo a morte

pois já temo demais a sorte 

e sinto às vezes buscar o azar

há nele uma beleza que me encanta

por quê?

não sei

a dor é magnética

familiar

talvez polarizada como eu

algumas vezes sei ser o que preciso

mas escolho ser o que quero

outras vezes desisto de precisar

e escolho só querer 

é quando sou dominada pela pessoa que fui

e fico com ressaca de mim mesma

se me perguntarem no dia seguinte

me odeio

se me perguntarem dali alguns dias

faria tudo de novo

tenho a intensidade natural 

de uma pessoa que se alimenta de afeto

de sofrimento

e de tudo que ateia fogo

no que ainda existe dentro de nós

pago um preço alto por ser assim

por muito tempo quis ser outra 

ser tal 

ou então, não ser  

bastava

mas sou

e eu que por tanto lutei 

hoje luto pra ser e só 

sentir e só 

deixar ir 

deixar correr, andar, voar

navegar

não sou rio calmo

nunca fui e não quero ser

sou rio de água transparente

mas que só vê o fundo quem sabe nadar

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