sou rio que corre e que anda
que, por vezes, sabe até voar
guardo nos meus olhos a força de uma mulher
e de outras mulheres
a doçura de uma menina
a transparência de uma nascente
e a profundidade de um oceano
mostro ao mundo quem sou
por não saber fazer diferente
e foi assim que entendi
entendi?
que existe um mistério natural
que paira sobre seres como eu
não é preciso esconder nada
não temo a morte
pois já temo demais a sorte
e sinto às vezes buscar o azar
há nele uma beleza que me encanta
por quê?
não sei
a dor é magnética
familiar
talvez polarizada como eu
algumas vezes sei ser o que preciso
mas escolho ser o que quero
outras vezes desisto de precisar
e escolho só querer
é quando sou dominada pela pessoa que fui
e fico com ressaca de mim mesma
se me perguntarem no dia seguinte
me odeio
se me perguntarem dali alguns dias
faria tudo de novo
tenho a intensidade natural
de uma pessoa que se alimenta de afeto
de sofrimento
e de tudo que ateia fogo
no que ainda existe dentro de nós
pago um preço alto por ser assim
por muito tempo quis ser outra
ser tal
ou então, não ser
bastava
mas sou
e eu que por tanto lutei
hoje luto pra ser e só
sentir e só
deixar ir
deixar correr, andar, voar
navegar
não sou rio calmo
nunca fui e não quero ser
sou rio de água transparente
mas que só vê o fundo quem sabe nadar
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