Hoje, em meio a esse turbilhão de sentimentos desonestos, eu desejo que a escuridão da vida não apague a minha luz - já tão ofuscada; que essa opacidade não seja capaz de esconder o brilho dos meus olhos; que toda essa lucidez não mude a minha loucura; e que a minha Primavera chegue. Que a minha Primavera chegue e traga consigo margaridas para florescerem no meu coração e borboletas para voarem no céu da minha barriga; que os meus cabelos tornem-se o meu nascer de Sol e todas essas cicatrizes, as constelações do universo que eu construí em mim - e destruí, e reconstruí. Que eu transforme em beleza a bagunça desse mundo. Que eu não tropece mais nos meus sentimentos - a não ser que eles sejam bons - e que eu consiga me livrar de você, mas leve Você comigo.
Vou me desfazer de você que não me vê. Que me angustia, tira o meu sono, me tolera, me descarta. Vou me desfazer de você: indiferença. Comigo, levo Você, de quem eu não seria capaz de desfazer-me mesmo que quisesse, que me roubou tantos beijos e sorrisos, que me fez chorar - de rir -, que entrou pela porta da frente do meu ser - há tanto tempo trancada a sete chaves - e me assaltou da maneira mais sutil, levando tanto do que eu tinha de bom guardado aqui só a espera de alguém que levasse.
Despimos-nos frente um ao outro. Derrubamos o muro que existia entre nós - e dentro de nós -, embora que por apenas um instante, e podemos dizer que, mesmo sendo um segundo comparado à imensidão da existência: nós fomos Nós. E, por isso, te agradeço. Obrigada por permitir que eu enxergasse Você. Obrigada por me abraçar forte quando eu fui Eu. Toda essa desordem que você me trouxe fica muito bonita quando olho pra ela dessa forma.
Eu sigo agora o meu caminho, sem saber ao certo para onde ele vai me levar, e dentre as pétalas que perdi - mas guardei - Eu levo Você. Sigo rumo à Primavera que talvez não seja o que planejei, mas em meio às margaridas que irão florescer e às borboletas que irão - e irão - voar de novo, Eu levo Você. O nosso encontro é irreversível. A nudez da nossa alma, inesquecível. Mas eu sei que preciso ir. Eu não suportaria encarar a destruição de novo. Não agora.
Quanto às pétalas que você me roubou - e as que te dei por vontade própria -, não as pedirei de volta. Elas vão crescer de novo. Mas guarde-as com muito carinho e responsabilidade, porque quando a Sua Primavera chegar, elas hão de fazer sentido para você. Talvez nessa futura estação você consiga ver os detalhes que agora, no Seu Inverno, você deixou escapar.
Levo Você no peito, deixo você no caminho que já se foi, no horizonte que me esforço visceralmente para não fitar. Mas Eu sigo. Por isso, Eu sigo. Por fim, Eu sigo. E, finalmente, Eu sigo.
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